Praia de Lopes Mendes, Ilha Grande, domingo de manhã. Como
é uma área de proteção ambiental,
não há carros. Chega-se até ali caminhando
por uma longa e bem-preservada trilha através da mata atlântica
ou pelo mar, de barco.
Por que o cinema brasileiro fala tão pouco de suas elites?
Porque não é fácil falar de classes dominantes
tão caricatas
Por causa das férias escolares, há muitas crianças
na areia. De repente, o cenário se transforma numa cena
de "Apocalypse Now", de Francis Ford Coppola. Um helicóptero
dá um rasante na praia. Depois chega outro, e logo mais
um terceiro. Ferindo a lei, pousam ao lado da areia, perto de
uma pequena igreja construída pelos pescadores da região
-uma das únicas edificações da praia.
Os passageiros saltam. Você já os viu naquelas revistas
que glorificam "celebridades". Caminham pela praia,
dão um rápido mergulho, mas não ficam. Logo
partem para atazanar uma outra freguesia, não sem antes
darem novos rasantes na praia. O negócio não é
desaparecer na geografia de um lugar. O negócio é
ser visto.
Não interessam as tradições do local. Interessa,
ao contrário, trazer consigo o mundo em que essas pessoas
vivem. É um pouco como George Bush, da primeira vez que
foi a Roma, já na Presidência do país mais
poderoso do mundo. Levou toda sua comitiva para comer no McDonald's.
Em Roma, como os americanos.
Ir à praia de helicóptero, no Brasil de hoje, não
é uma exclusividade do litoral fluminense. Em Trancoso,
na Bahia, um helicóptero pousou na semana retrasada em
plena praia do Espelho, lançando areia sobre os banhistas
que lá estavam. Saudável reação: foi
apedrejado. Até na distante Barra Grande, península
de Maraú, Bahia, helicópteros também começaram
a pousar em área pública -as praias- pela primeira
vez.
Num país em que o próprio presidente fala de leis
que "pegam ou não pegam", pousar de helicóptero
em locais proibidos pela lei pegou. Não é à
toa, aliás, que helicópteros são expostos
na Daslu, ao lado de calcinhas subfaturadas. Estão na moda.
Há algo de sintomático nisso. Em primeiro lugar,
a já cansativa confusão entre o público e
o privado, que, no Brasil, a cada ano se acentua. Hoje, o que
é privado é defendido a unhas e dentes, atrás
de vidros blindados, em ruas com cancelas e seguranças.
O que é público é constantemente conspurcado.
Não importa se uma praia é área de proteção
ambiental. Pousa-se ali porque se quer e (não) se pode.
Sintomática, também, é a ausência de
fiscalização por parte das autoridades competentes.
Retrato de um país em que alguém vai preso por roubar
um alicate em um supermercado, mas um ex-governador de São
Paulo com centenas de milhões de dólares em contas-fantasmas
no exterior está solto, comendo pastel em Campos do Jordão.
Houve um tempo em que se falava do Brasil como a Belíndia.
De um lado, a Bélgica; do outro, a Índia. A Índia
continua aí, a cada esquina. Ou, talvez, não mais,
já que aquele país tem crescido a taxas duas vezes
maiores do que as nossas. Investe pesadamente em educação,
o que não fazemos. Por outro lado, também não
faz mais sentido falar de Bélgica, cuja elite é
certamente mais responsável do que a nossa. Na falta da
Belíndia, talvez seja o caso de se falar hoje de Bahriti.
De um lado, o Bahrein -com toda a sua exibição de
riqueza. Do outro, o Haiti. Convenientemente, as nossas forças
armadas já estão por lá.
Um economista do MIT, Lester Thurow, sustenta a tese de que "o
que falta na América Latina é elite. O que existe
é oligarquia. As oligarquias desfrutam ou herdam o poder,
mas não entendem as responsabilidades públicas inerentes
a ele". Ou seja: querem os privilégios, mas não
os ônus. Querem a gravata da Gucci, mas não os impostos
de importação, que se convertem em saúde,
educação etc.
Depois, reclamam da falta de segurança, da inoperância
dos governos, apadrinham uma creche para apaziguar a consciência
e, ato final, compram um helicóptero para sobrevoar os
nossos Haitis.
São Paulo já é a segunda cidade com o maior
número de helicópteros em operação
no mundo, perdendo apenas para Tóquio, no Japão.
Em parte, essa estatística se deve ao trânsito caótico
das duas cidades, à extensão geográfica que
ocupam, à falta de planejamento urbano.
Presume-se, também, que muitos desses aparelhos sejam utilizados
de forma correta -o que não elimina o problema criado pelos
usuários que não agem dessa maneira.
Para finalizar: muitas vezes me perguntam por que o cinema brasileiro
fala tão pouco de suas elites. A resposta é simples:
porque não é fácil falar de classes dominantes
tão caricatas. Pena que Buñuel não esteja
mais entre nós. Nem Tomas Gutierrez Alea, cujo olhar cáustico
também teria dado conta do recado. Sobra Lars Von Trier,
que fez um filme sobre um bando de pessoas que fazem de tudo para
chamar a atenção. Chama-se "Os Idiotas".
Walter Salles, 49, é cineasta, diretor, entre outros filmes,
de "Central do Brasil" e "Diários de Motocicleta".