No Rio
de Janeiro os transplantes de fígado em Julho diminuíram 50%
*Carlos
Varaldo
No mundo em
que vivemos, atitudes corretas e honestas como a Lei Seca, de
tolerância zero de bebida alcoólica para dirigir veículos pode ser
considerada um exemplo muito bem colocado na carta de número sete
do baralho do Tarô (representando o diabo), definindo que os fins
justificam os meios: menos alcool resulta em menos accidentes.
Mas Issac Newton já nos dizia em sua terceira lei que "toda
ação provoca uma reação de igual intensidade e em sentido
contrário", ensinando com isso que antes de reagir
devemos agir, levando em consideração o desdobramento que uma ação
poderá causar em outras áreas da sociedade, neste caso da saúde.
Portanto,
quando as autoridades implantam com todo o rigor a Lei Seca,
objetivando somente os acidentes de trânsito esquecendo discutir
com outras áreas do ministério da saúde as conseqüências que a
redução do número de acidentes pode ocasionar problemas na
captação de órgãos para transplantes acontecerão
irremediavelmente. A Lei Seca é necessária e deve continuar a
ser aplicada com rigor, mas por falta de uma discussão estratégica
das ações coordenadas na saúde pública, o ministério da saúde está
permitindo que se crie um cenário no qual, não demora, a oferta de
órgãos para transplantes estará consideravelmente diminuída. Como
resultado, já no mês de julho a captação de órgãos no Rio de
Janeiro caiu pela metade. Somente quatro transplantes de fígado
foram realizados em trinta dias.
Parece
contraditório e até trágico, mas a captação de órgãos para
realização de transplantes está diretamente ligada ao numero de
acidentes de transito, já que indivíduos poli traumatizados são os
candidatos a evoluir para a morte cerebral. Se após trinta dias
da implementação da Lei Seca estamos comemorando a redução de
acidentes e do número de mortes no transito, daqui a poucas
semanas estaremos observando o aumento de mortes nas filas de
espera por órgãos para transplantes, óbitos que numa analise fria
das estatísticas deveremos debitar do sucesso da Lei Seca.
Não somente é
necessária a imediata realização de campanhas que incentivem a
doação de órgãos, mas o momento é altamente propício para de vez
por todas implementar sistemas de captação nos hospitais de
emergências. A lei de transplantes determina que cada unidade
hospitalar de emergência deverá possuir uma comissão
intra-hospitalar para a captação de órgãos. Cabe a esses
profissionais observar a entrada de feridos e acompanhar aqueles
que apresentem maior possibilidade de evoluir para a morte
cerebral. Os familiares desses pacientes devem receber
informações sobre o critico estado de saúde, dos exames que estão
sendo realizados, dos esforços para tentar evitar o agravamento do
quadro clínico e, se desafortunadamente o desenlace é a morte
cerebral, então, a família deverá ser abordada sobre a vontade da
doação dos órgãos.
Com
emergências lotadas, hospitais que não possuem as comissões
intra-hospitalares são deficientes no atendimento aos familiares
dos pacientes que ingressam nas emergências e somente abordam as
famílias no momento da morte cerebral. Esta se constitui na
principal causa de recusa em autorizar a doação, pois a maioria
dos familiares relata que foram ignorados durante o período de
internação, não recebiam informações e somente na morte cerebral
foram procurados para saber se concordam em autorizar a doação dos
órgãos.
Neste momento,
com o número menor de acidentes os profissionais que trabalham nas
emergências passam a dispor de maior tempo para dedicar-se aos
pacientes e às famílias. Pode ser o momento oportuno para
capacitar os profissionais e implementar as comissões
intra-hospitalares. Em alguns hospitais poderá até ser possível se
reservar um leito de UTI exclusivo para a manutenção dos pacientes
com morte cerebral aguardando a doação.
Para evitar a
reação descrita por Isaac Newton na
lei da física, deveríamos seguir uma das famosas e ecléticas
sentenças pragmáticas sobre aspectos da vida de Benjamim Franklin,
o qual afirmou só conhecer duas certezas na vida: os impostos e a
morte. A lei Seca não é um imposto, mas tal qual um imposto a
origem é do governo. Devemos atuar rapidamente para que a segunda
certeza de Benjamim Franklin não aconteça, evitando dessa forma a
morte daqueles que esperam um transplante de órgãos para
sobreviver.
*Carlos
Varaldo é presidente do Grupo Otimismo de Apoio ao Portador de
Hepatite
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